21.5.18

OBRAS POÉTICAS






com o nome José Alberto de Oliveira:

Alegria Irrecusável (1974) – esgotado
Nos Vidros da Noite (1983) – esgotado


com o nome J. Alberto de Oliveira:

A Água do Nome – Edições Afrontamento, 1998
O Som Aproximativo – Edições Afrontamento, 2005
Palavras Escolhidas – Cadernos Nó Cego (1), 2005 (plaquete, fora de mercado)
No Linho Verbal – Cadernos Nó Cego (2), 2006 (plaquete, fora de mercado)
7X7 Versos – Cadernos Nó Cego (3), 2008 (plaquete, fora de mercado)
O Anjo Inefável – Cadernos Nó Cego (4), 2012 (plaquete, fora de mercado)
Entrepoemas - Edições Afrontamento, 2014
O Mês Maio da Mãe – C. Art, 2015
Das Varandas de Ver – Cadernos Nó Cego (5), 2917 (plaquete, fora de mercado)

DIVISA


20.5.18

O DESEJO DO VERBO





Ainda não sei o que á a poesia.
Mas, vou sabendo o que ela não é.
A poesia não é um assunto ou um tratado. Não se ensina.
A poesia lê-se. Ouve-se. Intui-se. Faz-se. Flui esteticamente.
A poesia é de pouquíssima gente.

Os poetas respiram, falam e ouvem com a imaginação.
Por meu lado, escrevo para chegar às clareiras interiores da fala.
O vidro, a vida e o vento deram-me inumeráveis 
e magnificentíssimas palavras.
E, se de repente, eu pudesse congregar 
todos os vocábulos que ouvi, todas as frases que li, 
todos os cantos e palavras que ritmaram o quotidiano?

Há palavras de silêncio e o silêncio deixado pelas palavras.
Afectos de palavras e palavras aproximativas. 
Palavras de desprezo, de ruptura e palavras de aprumo.
Palavras de conveniência, de angústia e dor, 
palavras de adeus e palavras de liberdade. 
Palavras de ordem e palavras de negação. 
Palavras bem construídas
e palavras deformadas ou viradas do avesso.

Através das palavras o desejo do verbo expande-se.

J. Alberto de Oliveira

Imagem:  A. Tapiès

10.5.18

DICIONÁRIO





Ao dicionário da alma e de suas lembranças eu fui buscar algumas palavras:
A – água, amora, ave, anjo, alicerce, aliança, areia, abrigo, amor, alegria, aprumo
B – beijo, barro, branco, belo, bondade, brandura
C – casa, cristal, coração, confiar, carícia, criança, cal
D – dádiva, delicadeza, dom, delícia, deus, desejo, degrau, doçura
E – escada, enleio, encontro, estrela
F – fruto, fonte, flor, fermento, fogo, frágil, firme, folha, falar
G – gota, graça, gume
H – herança, haver, horto, hora
I – infância, imo, inocência, justo
J – julho, joelho, justo, jardim, jogo,
L – luz, leite, limpidez, linho, leveza, lume, lâmpada
M – mar, mulher, melancolia, mel, murmúrio, música, maresia, madeira
N – noite, nudez, nupcial, nome, névoa, neve, nuvem
O – ouro, orvalho, ombro, onda,
P – pulso, púrpura, pão, pedra, porta, puro, pensamento, perfume, poema, pausa
Q – querer, quietude, quasi
R – romã, ressurreição, rosa, respirar, rosto, raiz
S – sangue, sede, silêncio, segredo, sonho, sentimento, seio, ser, setembro, sal
T – terra, transparência, tangível, triste, tábua, timbre, tocar
U – uva, umbral, escuro
V – vinho, verdade, vidro, vigília, vento, vórtice, ver
X – xuva de chuva, xamar de chamar
Z – zéfiro, zénite

J. Alberto de Oliveira

4.5.18

DAS MÃES





Há tempos comecei uma nova tarefa: reunir as palavras
ditas pelas mães agarradas à sonoridade exaltante dos filhos.

No meu caderno de papel almaço vou anotando figuras,
pequenas imagens, frases silvestres, metáforas altivas.

São textos que não publico nos jornais, não escrevo na madeira,
não sarrabisco nos muros do mundo, não soletro no escuro.

Transcrevo tudo o que a luz me dá a ver
no verbo das mães à mistura com as profundezas de ser.

J. Alberto de Oliveira


Desenho - Alberto Péssimo

3.5.18

A MÚSICA





A música é um poderoso argumento para pensar.
O seu rigor liga-se à mais intuitiva sensibilidade.
Talvez a geometria da matéria seja musical.

J. Alberto de Oliveira

24.4.18

UMA FURTIVA CHAVE CEGA





Se nos fecharem a porta
como saber abri-la?

Eu direi que só nos restam
os segredos e a ferrugem

de uma furtiva chave cega.

J. Alberto de Oliveira

14.4.18

AUTOPSICOGRAFIA - FERNANDO PESSOA





O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa


Imagem: Foto – A. Machado – Fernando Pessoa na entrada 
do teatro Schauspielhaus (Zurique) - Suíça