14.6.17

HÚMUS - RAUL BRANDÃO




De Húmus vem a vila que persiste com  as suas insignificâncias, o grotesco, a vulgaridade, o espanto, o luto e o bolor, o egoísmo e a mortalidade a fechar as linhas do tempo.

A vila parece do tamanho das cismas que povoam um cemitério.

Húmus é um lugar viscoso, cheio de vozes remendadas pela dor.

Na vila moram velhas cheias de mesuras, de baba, de fel e rancor, de avareza e fome, de ais e farrapos. São maníacas e fedorentas, com sentimentos postiços e requentados.

Na vila o desconforme não se afasta da pobreza nem do destino que a toda a hora mói, rói e remói.

Na vila de Raul Brandão até o invisível dói.

J. Alberto de Oliveira

3.6.17

QUASE AO RUBRO




Quase ao rubro
me cega e seduz

o murmulho do lume.

J. Alberto de Oliveira

27.5.17

DO TEMPO SEM TEMPO




À hora das sombras luzentes
da quietude e relento

o sinal da cancela chamou.

À hora do tempo sem tempo
a sulamita depressa foi abrir.

Ela bem sabia quem havia de vir.

J. Alberto de Oliveira

20.5.17

AS ESTRELAS DE VIENA




São mais que perfeitas
de tão musicais

as estrelas de Viena.

No infinito
de língua nenhuma

acendem
sons e delícias.

Apuram a arte
sumptuosa de as ouvir. 

J. Alberto de Oliveira

12.5.17

DIZER AO OUVIDO




Linho
sol
amor
azul
Ana
fogo
vento
luar
flor
Lia
sal
Rosa
mar

são nomes
ou palavras humildes
preciosas

simples e sem sombra
de erro
quando as dizes ao ouvido.

J. Alberto de Oliveira 

1.5.17

HORAS DE CEIA




Todas as noites o rosto do amor nos dizia:
– São horas de ceia!

Eu ouvia e pensava, repetindo no silêncio de mim:
– São horas de lavar os pés a quem se ama.

J. Alberto de Oliveira

21.4.17

A SPREZZATURA É UMA ARTE




Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu primeiro discurso, na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo do pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela assembleia de vedetas políticas.
O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse-lhe em tom paternal:

“Jovem, cometeste um erro grave. Foste demasiado brilhante no teu primeiro discurso. Isso é imperdoável. Devias ter começado um pouco mais na sombra. Devias ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstraste hoje, deves ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos.
Jovem, o talento assusta.”

Ali estava uma das melhores lições que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. Eis um paradoxo angustiante:
O princípio da inveja. A razão do “imperdoável.”

Há na língua italiana, a propósito de imperdoável e imperdoáveis
(gli imperdonabili), alguns vocábulos intensos no seu dizer significante, no seu vigor e sonoridade:

Intelligenza – faculdade activa do entendimento e lucidez.
Eleganza – elegância, delicadeza e brio comunicante.
Piglio – toque, distinção deliberada.
Disinvoltura – desenvoltura, agilidade viva.
Noncuranza – descuido displicente. 
Sprezzatura – o supremo brasão da inteligência unida à sensibilidade e fidalguia, um modo elevado, negligentemente livre no fazer e dizer, “próprio de mestre seguro de si.” (N. Zingarelli)

A sprezzatura é consonante com “maneiras de negligência magistral”. É uma arte.

J. Alberto de Oliveira


Fonte: Novo Dizionario della lingua italiana Universale (1912) -  P. Petrocchir