17.10.17

UNS PASSOS MAIS ADIANTE




Sem lembranças eu sou mais cego
que um nó.

E sem as raízes do afecto
sou pior

que um cisco nos olhos.

Com os pés nus
pensativo e descalço

eu digo a palavra Pai
e dou uns passos mais adiante.

J. Aberto de Oliveira

7.10.17

O POETA SOLAR




S. Francisco de Assis lia com alegria perfeita todas as horas da vida.
Ele sabia, por exemplo, que nascer, viver e morrer são dons e poesia.

O princípio do poeta é ler-se inteiro na sua própria nudez.
O Santo de Assis respirava e louvava a luz solar.

A elegância interior de S. Francisco de Assis expandia-se para fora de si mesmo, para além do universo e da alegria
           
Francisco é muito difícil porque excessivamente poeta.
É um jogral.
           
De Assis, bem-vindas sejam todas as correntes de ar.

Francisco, o poeta solar, seja louvado com o mesmo louvor das suas falas com Deus e com todas as criaturas.
S. Francisco de Assis cantava os laços afectivos do universo.
Exultava em fraternura.

J. Alberto de Oliveira

Imagem: Capa do livro foi publicado por LETRAS & COISAS, 2017
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3.10.17

POST-SCRIPTUM




POST-SCRIPTUM
PARA
O SANTO POETA DE ASSIS
                       

Amava e não escrevia.
Soletrava com Deus.
Dizia segredos de si para si.
Falava com todas as criaturas
dobrando os efeitos
da perfeita alegria.
                       
Entoava louvores
como quem anda à procura.
O Santo de Assis andarilhava
caminhando e divagando.
                       
No coração de Francisco
se abria dia após dia 
um abrigo para alguém entrar.

J. Alberto de Oliveira

24.9.17

UM PONTO VORAZ




Um ponto voraz
de asas e pó.

Um lugar de iluminura
e de meias palavras.

O horizonte rubro
de sol

no extremo do mar.

J. Alberto de Oliveira

15.9.17

NUNCA ESTOU SÓ





Nunca estou só.
Há sempre alguém que ama, que adivinha, que se move
para mim, desde que eu não esteja fora.

O entoar da água,
em queda lenta e livre, no tanque das noites lunares,
ainda é a vocação primordial.

Ainda me inspira e apura a fala.

J. A. de Oliveira

1.9.17

ALUMIAÇÕES




Quando fui criança, os nomes que dizia, todos ou quase todos, 
eram incompletos.
Somente o volume e as formas das coisas permaneciam inteiras 
nos meus olhos.
Com os objectos do mundo, na sua complementaridade justa e geométrica,
eu compunha as primeiras frases, incautas, frágeis e breves.
Eram frases de fulgor, lúdicas, miríficas e matinais.

As minhas alumiações começavam pela sensibilidade intemporal da alma.
Com rigor e pudor as transmitia ao papel.
Não pediam nada em troca.
E quando a luz era escassa ou nula, a delicadeza do papel escrito
espelhava um céu de centelhas.

As letras nasciam no momento em que os olhos de ser
e a mão de escrever
tocavam  e perfumavam os sentidos do silêncio.

Pedra a pedra ainda saberei construir a idade que me resta?
Quem me ajuda a erguer ou a restaurar casas invisíveis 
em lugares inacessíveis?
São casas ou abrigos para as folhas do pensamento,
para as alumiações
e para os segredos que um dia não poderei levar comigo.

J. Alberto de Oliveira

22.8.17

REGRA GERAL




Regra geral, a grande notícia é a desgraça do vizinho.
Também é muito badalado o rumor que sustenta uma lenda nova,
aguçando a curiosidade.
Por sua vez, tudo o que enriquece o desenvolvimento ou estimula
a aprendizagem cansa.
Pensar ou ler o mais profundo
incomoda.

No tic-tac recitativo do tempo, cego e voraz, 
a melhor parte da vida talvez
seja a verdade que só aparece nos intervalos do amor real 
ou do amor sonhado.

J. Alberto de Oliveira